É bem conhecida a importância do pão na alimentação do homem, sobretudo nas regiões do interior, onde o sustento é geralmente baseado nos produtos que a terra dá. (…)

(…) Em consequência deste papel primordial, encontramos em Vila Real uma grande quantidade de moinhos, junto das linhas de água, para moer o cereal e obter a farinha para o fabrico do pão.

Dada ainda a importância do pão, não surpreende que os moleiros e os padeiros (maioritariamente mulheres) ocupem lugar relevante no tecido económico, e portanto social de Vila Real. (…)

(…) Muita gente se ocupava nessa actividade, entre elas as chamadas amassadeiras, a quem pertencia amassar o pão e que, muitas delas, prestavam serviço em mais de uma padaria.

Uma dessas amassadeiras foi uma senhora chamada VICÊNCIA AUGUSTA CRAMEZ, que foi mãe, entre outros, do pintor HEITOR CRAMEZ (1889-1967) e de MIQUELINA DO CARMO CRAMEZ (1883-1958).


Esta senhora casou em segundas núpcias com um viúvo chamado FRANCISCO DELFIM (1871-1947), pintor da construção civil. Francisco Delfim ganhou a alcunha de LAPÃO, quando criança, posta por uma sua tia Filomena, sua protectora. A alcunha proviria do facto de Francisco Delfim ter caracteres somáticos (maçãs do rosto salientes, nariz curto e côncavo, baixa estatura) que o aproximavam dos habitantes da Lapónia. (…)

(…) Francisco Delfim resolve (um pouco estranhamente, uma vez que era um operário de sucesso no seu ramo) (…) com as economias que possuía, montar na Rua da Misericórdia (actual Casa Lapão), uma padaria a que associa a sua alcunha.

Na sua decisão deve ter pesado também o facto de estarmos então em plena 1ª Guerra Mundial, em que a indústria da panificação apresentava fortes perspectivas de ser lucrativa. Esta padaria funciona regularmente até praticamente aos fins dos anos 30 do séc.XX. (…)

(…) Acontece que por casa de Miquelina e Francisco ia por vezes uma costureira, Delfina, que tinha uma irmã no Convento de Santa Clara, que, embora extinto em 1855, ainda guardava os segredos da doçaria que ali se fabricou durante séculos.

Esta senhora revela-lhes as receitas dessa doçaria – Pastéis de Toucinho (Cristas de Galo), Pastéis de Santa Clara, Tigelinhas de Laranja e outros doces cobertos com massa de hóstia.

Isso motivou Miquelina Cramez a avançar com o fabrico destas especialidades, às quais acrescenta a Bola de Carne, os Covilhetes, os Pitos, os Santórios e, em momentos certos do ano, os Cavacórios e as Ganchas. (…)

(…) No fabrico destas receitas de doçaria conventual é acompanhada, mais tarde, pela sua nora ALZIRA MARTINS CRAMEZ (1910-1993), esposa do seu filho ANTÓNIO DELFIM CRAMEZ (1912-1956), que após a morte da sua sogra, no final dos anos 50, e depois de um pequeno interregno, dá continuidade ao fabrico da doçaria conventual, sozinha e na sua própria habitação, não deixando morrer, definitivamente, o segredo da doçaria. (…)

Alzira Cramez, com a idade e devido a alguns problemas de saúde – reumatismo – começa a ter dificuldades na execução da sua tarefa, sendo ajudada pelo seu filho ARTUR ANTÓNIO MARTINS CRAMEZ (n.1939), hoje o responsável pela CASA LAPÃO, e o grande impulsionador e dinamizador da empresa que lidera. (…)

(…) Artur, analista químico (Vicominas-Marão), apercebe-se de como o negócio da sua mãe é lucrativo, solicita-lhe que lhe ceda parte da clientela, iniciando-se assim, de uma forma “clandestina”, no ramo, seduzido pela alquimia da doçaria com temperaturas de fornos de cozinha. (…)

(…) Instala-se durante 10 anos (1980), no local onde funcionara a Padaria Lapão, e hoje se situa a fábrica, em frente à Loja Casa Lapão. (…)

Em 13 de Dezembro (dia de Santa Luzia) de 1990, tendo como pretexto os Pitos que constituem uma das especialidades que confecciona, arranca com a CASA LAPÃO, onde trabalham além dele, as duas filhas, ÁLEA ZITA e ROSA MARIA, que com o pai, garantem a continuidade de uma empresa de tão grandes tradições na Doçaria Conventual.

 

Adaptado de Neves, Elísio Amaral e Cabral, A.M.Pires,
Vila Real – História ao Café”
Grémio Literário Vila-Realense/CMVR, 07/2008